Conto: Meus lobos
Meus Lobos
Gisele Bera Bizarra
O garoto que vestia um pesado casaco, gorro, luvas e botas de couro se acomodou na cadeira de madeira da varanda da cabana enquanto soprava a caneca de chocolate quente que segurava entre as mãos. Estava muito frio naquela noite, mas ele queria observar o céu, pois este estava incrivelmente lindo. A lua cheia brilhava como nunca tinha brilhado antes, pelo menos nas lembranças do garoto.
A cada gole de chocolate quente, ele sentia que se energizava com o calor que percorria o centro de seu corpo. Era a energia que precisava para se recarregar de tudo o que aconteceu ao longo do dia. No entanto, aquela energia só parecia surtir efeito verdadeiro sob a luz da lua cheia. Uma poção mágica que só funcionava sob certas circunstâncias.
“Amanhã vai ser um novo dia. Um bom dia”, ele pensou.
De repente, ele ouviu sons vindos da floresta. Ficou assustado não só pelos sons estranhos, mas também por tê-los ouvido muito bem. O silêncio da floresta fazia com que qualquer som ficasse nítido, muito diferente de quando se está na cidade. O garoto se levantou, mas manteve-se no mesmo lugar. Seus olhos se moviam rapidamente tentando encontrar qualquer coisa que possa ter sido a origem dos sons. A poção mágica de chocolate pareceu perder todo seu efeito.
Os sons se repetiram. Eram grunhidos e o farfalhar da vegetação. Algo se aproximava da cabana. Com o coração acelerando, ele se dirigiu à porta e tremeu assim que ela, para sua surpresa, não abria. Ele olhou para trás enquanto desesperadamente continuava tentando abrir a porta. Em meio à floresta, pequenos pontos dourados brilhavam em pares. Ele estava sendo observado.
– Pai! Mãe! Abram a porta! – ele gritou, mas ninguém apareceu.
Após seu grito, a vegetação começou a se movimentar. Os pontos dourados se revelaram. Eram lobos. A alcateia completa parecia estar ali. O líder comandava as passadas de caça, rosnando, enquanto os outros o acompanhavam. Pararam a uma meia distância da varanda da cabana e começaram a uivar. Aquilo era para ser um uivo ameaçador devido às circunstâncias, mas para estranheza do menino, estava mais para irritante.
O garoto levantou uma das sobrancelhas e deixou a cabeça cair um pouco de lado em dúvida, se questionando o que estava acontecendo. Ele até mesmo deixou de tentar abrir a porta. Os lobos começaram a saltar, pular uns nos outros, uivando.
– Eles estão… brincando? – o garoto se questionou.
Os lobos uivavam tanto, mas tanto, que pareciam estar fazendo de propósito para irritar. O garoto olhou, incrédulo, para sua caneca de chocolate quente. Os lobos nem pareciam notar sua presença nos degraus da varanda.
De repente, um clique. A porta se abriu, e a floresta desapareceu. No lugar dela, o quarto iluminado. Era sua mãe, vendo-o de pijamas, sentado diante de uma barraca de brinquedo, ainda segurando a caneca. No meio do quarto, os quatro filhotes de husky siberiano da família rolavam uns por cima dos outros, uivando.
– Mas o que está acontecendo aqui? – perguntou a mãe, levemente zangada.
– Meus lobos – respondeu o garoto.
FIM
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