Conto: Burnout

Burnout

Gisele Bera Bizarra


Quando ela abriu os olhos, encontrou sua coordenadora a chamando. Era uma mulher baixinha e loira que falava com uma voz rouca. Por instantes que pareceram uma eternidade, a secretária pegou no sono e não ouviu a ordem que a chefe havia passado.

– Perdão. O que disse mesmo? – perguntou a secretária, uma jovem de cabelos coloridos, um rabo de cavalo e óculos de armação grossa.

– Você precisa prestar mais atenção no que eu falo – reclamou a coordenadora. – Como eu estava dizendo, você precisa criar um novo endereço de e-mail para a empresa. Na verdade, seria para você receber os e-mails no meu lugar e separá-los por ordem de prioridade. Faça isso e depois me passe o endereço que criar.

– Certo – respondeu a secretária.

Tão logo deu a ordem, a coordenadora deixou a sala com sua bolsa de mão, o que logo fez a secretária pensar que ela iria sair e não voltar mais. Sempre que ela dava uma ordem e saía com a bolsinha, não voltava mais. Com a saída, a secretária se viu livre para resmungar sobre o quanto se sentia usada naquela empresa e no quão cansada estava. Acreditando que a superiora não retornaria, deitou-se num dos sofás e colocou o celular para despertar depois de uma hora.

Sua consciência foi para o mundo dos sonhos rapidamente e, dentro de uma hora, sentiu que dormiu profundamente. Era ela e o nada apenas.

No dia seguinte que, aliás, ela não entendia como havia chegado tão rápido, ela já estava em sua mesa quando a coordenadora a chamou e disse:

– Você não vai acreditar. Criaram e-mails em meu nome para ofender nossos clientes. Inclusive, um deles é “vivesendoloira_@empresa.com”. Como assim um e-mail “Vive sendo loira”? Não é mesmo, querida?

Ela olhava para a secretária como um detetive que olhava para o culpado dizendo “eu sei que você sabe que eu sei”. Isso enquanto a coitada da funcionária levava discretamente uma das mãos ao peito pensando com extrema dúvida se ela havia feito alguma coisa errada, duvidando das próprias memórias. Ela não se lembrava de ter criado aquele endereço. Seus olhos piscavam rápido. A mente tentava costurar lembranças que não existiam. E, no fundo, o medo: teria feito tudo dormindo?

Porém, eis que abre seu computador e vê aberto em uma aba o e-mail do Vive Sendo Loira. Ficou tão surpresa que arregalou os olhos e quase caiu da cadeira. Mais uma vez duvidou da própria sanidade. Ela não se lembrava de ter criado aquele endereço de e-mail. Por que ele estaria em seu computador?

Toc, toc…

A coordenadora bateu com a unha do indicador sobre a mesa da secretária e disse:

– Estou de saída. Resolva a questão do Vive Sendo Loira até eu voltar.

E lá foi ela com sua bolsinha.

A secretária olhou para a tela de seu computador com um semblante desanimado e confuso. Seria burnout? Reflexo de ter uma superiora tóxica? O desânimo a fez sentir um cansaço muito grande repentinamente e a única solução que veio à sua mente foi se deitar no sofá, programar o despertador no celular e dormir.

Tão logo sua consciência apagou, acordou na vida real, em sua cama, num sábado de manhã. Questionar-se sobre o que fazia de sua vida foi inevitável.

– Preciso descansar…

O celular vibrou. Um novo e-mail. O remetente: ‘Vive Sendo Loira’. Ela desligou o aparelho e voltou a dormir.

FIM

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