Conto: Conexão Instável

 Conexão instável

Gisele Bera Bizarra


Todo dia, naquele mesmo horário, ele estava lá. Na porta.


Era uma sexta-feira muito quente. No céu não havia nenhuma nuvem, apesar de o tempo todo a previsão do tempo dizer que logo, logo choveria. Dava pra ver até o calor subindo do asfalto se você prestasse um pouco de atenção.


Abanando-se com um leque improvisado feito de folha de caderno, uma garota caminhava ofegante no seu caminho rotineiro de volta para casa da escola. Alguns outros jovens da escola seguiam pela mesma rua, mas ela não queria muita conversa naquele momento. Tudo o que ela queria era voltar para casa e se sentar frente ao ventilador.


Porém, foi depois de alguns minutos de caminhada que o motivo dela para seguir aquele caminho todos os dias realmente apareceu. Tudo bem. Ela queria, de verdade, se refrescar na frente do ventilador, mas o motivo real, o real mesmo, estava se aproximando a cada passo que ela dava: o menino da porta.


Havia uma casa simples cujas janelas e porta já eram direto na calçada. Não havia um quintal ou uma garagem. Todos os dias, no mesmo horário em que ela passava, o menino da porta, como ela costumava chamá-lo, estava lá. Não importava a roupa que ele estivesse usando. A característica mais marcante dele era o chapéu de cowboy.


“Não é possível. Todos os dias ele está em pé na porta da casa dele, no mesmo horário que eu passo”, ela pensou.


A garota não conseguiu evitar pensar que o motivo para ele estar na porta todos os dias naquele horário fosse o mesmo que a levava sempre a fazer aquele caminho para casa. Para ela, ele estava lá para vê-la. Inclusive, passou a se arrumar ainda mais para a escola.


Era muita ansiedade por parte dela. Incentivada pelas amigas, ela resolveu falar com ele. Fez uma super produção e ainda retocou tudo antes de sair da escola. Sua autoestima estava lá em cima.


É hoje, pensou.


Apressou-se ao longo do caminho, abanando-se com mais um leque improvisado com folha de caderno. Quando estava prestes a se aproximar da casa dele, escutou:


– Seu vagabundo! – uma senhora bem rabugenta saiu da casa do outro lado da rua e andou batendo os pés na direção dele. – Eu já mudei a senha umas duzentas vezes e você insiste em ficar roubando ela! E sempre no mesmo horário! Pague sua própria internet!


– Mas, dona! Mas, dona, é só por cinco minutinhos! Se eu não responder agora, minha namorada vai achar que eu sumi de vez… Só posso falar com ela nesse horário. Acha que pra mim é fácil ficar parado aqui na porta embaixo desse sol? É o único lugar que pega o wi-fi da senhora.


– Mas é um imprestável mesmo!


Escondida atrás do leque improvisado, ela passou rápido, sentindo o calor do sol e da própria vergonha queimando igual.


FIM


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