Conto: O Azul Infinito
O Azul Infinito
Gisele Bera Bizarra
Era uma noite de verão. O céu estava estrelado e a lua que vigiava o sono das pessoas naquele dia era crescente. No meio de seu descanso, uma jovem se mexia para lá e para cá na cama totalmente incomodada com o calor. Quando finalmente parou, de barriga para cima, abriu os olhos e fez uma careta de desgosto. Ela só queria dormir.
“Vamos tentar de novo”, ela pensou, enquanto ajeitava o ventilador, deitava-se de lado e fechava os olhos.
Ali ela ficou parada por aproximadamente 10 minutos até que desistiu e se levantou. Não era apenas o calor que a impedia de dormir, mas também alguns questionamentos. Ela carregava medos e receios de seu dia a dia, para os quais não encontrava saídas. Quando fechava os olhos, via-se em um longo corredor cheio de portas fechadas e se culpava. Se cada porta fosse uma oportunidade, por que ela não conseguia abrir nenhuma? Era sempre aquele mesmo corredor e, quando ela tentava abrir qualquer porta, esta se afastava.
Cansada dessas imagens, ela caminhou até o quintal no qual havia muitas flores e uma piscina. Lá estava tão fresco que ela seria capaz de dormir ali mesmo. Tentada, ela se deitou em uma espreguiçadeira que estava ao lado da piscina. Ficou de barriga pra cima, uniu as mãos sobre o corpo e encarou o céu com olhos tristes.
“Mar de estrelas”, ela pensou, levantando uma das mãos como se pudesse mergulhá-la naquela escuridão. Quando voltou a unir as mãos sobre o corpo, teve a impressão de ter ouvido uma música. Não era qualquer música, não era um vizinho com som alto. Era uma voz cantando. Próximo.
Sentou-se de imediato na espreguiçadeira e olhou para os lados. No entanto, apenas ela estava ali. A música continuou, então ela fechou os olhos para tentar identificar de onde vinha, ainda com a impressão de que vinha bem de perto. A jovem olhou para a piscina e notou que as águas se mexiam como se alguém estivesse nelas. Vagarosamente, se levantou e caminhou até a borda, não acreditando no que seus olhos viram. Algo azul brilhante nadava em sua piscina e era grande demais para ser um peixe. Por questões de segundos, a imagem de uma porta no corredor que não se afastou surgiu na mente dela e ela se abaixou na borda instintivamente. Quando tocou a água, acordou na espreguiçadeira com os primeiros raios do sol.
“Foi só um sonho”, ela pensou, desanimada.
***
Na noite seguinte, o sentimento de culpa por não conseguir abraçar oportunidades abraçava-a novamente. Seus olhos passaram rapidamente pela mesa de cabeceira, na qual repousavam várias caixas de remédios. “Dessa vez eu não posso parar por conta”, ela pensou. E de tanto pensar, mais uma noite em claro se iniciava. Deitou-se de barriga para cima, uniu as mãos sobre o corpo e fechou os olhos. Foi aí que ela se lembrou do sonho da noite anterior. Será que teria o mesmo sonho se fosse dormir na espreguiçadeira novamente?
Com uma leve empolgação, levantou-se e caminhou até o quintal, posicionando-se na espreguiçadeira como da outra vez. Levantou uma das mãos na direção do mar de estrelas e deu um pequeno sorriso. A lua também chamou sua atenção. Sem saber explicar a si mesma o porquê, ela notou que a lua chamava muito sua atenção. “Logo será lua cheia”, ela pensou.
De repente, seus ouvidos captaram a música novamente, e foi aí que ela desejou que o sonho continuasse mais um pouco, assim que alcançasse a borda da piscina. O som vinha dali mais uma vez. A imagem da porta no corredor veio à sua mente novamente e sua mão conseguiu segurar um dos trincos que tanto se afastavam dela. O azul brilhante estava nadando na piscina novamente e, dessa vez, se aproximou da borda tanto quanto a jovem. Ela olhou para aquele azul que parecia infinito e viu olhos retornando o olhar curioso. “Estou sonhando, então não preciso ter medo”, ela pensou, antes de aproximar uma das mãos da superfície da água. Uma mão forte saiu da água e entrelaçou seus dedos aos dela. Em seguida, o olhar curioso também saiu de dentro da água. Ele possuía longos cabelos azuis que emolduravam o rosto de um anjo. O peito nu possuía desenhos que imitavam um colar. Ele era um tritão; no lugar das pernas, a cauda de peixe.
– Quem é você? – ela perguntou.
– Sua esperança – ele respondeu.
Ela riu de forma nervosa e perguntou:
– A esperança de me afogar na piscina?
Ele fez sinal de negativo com o indicador da outra mão e estalou a língua três vezes. “Tsc, tsc, tsc”.
– Pelo contrário – disse em seguida. – Eu apareci aqui justamente para mostrar que este não é o seu lugar. Porém, não agora. Descanse sem culpa. Na lua cheia conversaremos.
Ele tocou a testa dela com as pontas dos dedos e aos poucos tudo foi sumindo.
***
Por alguns dias, depois daquela conversa, ela não sentiu a ausência de sono. Tão logo se deitava, os olhos pesavam e logo era levada para o mundo dos sonhos, estes que eram logo esquecidos assim que acordava. Nem mesmo a imagem do corredor cheio de portas lhe causou incômodo.
“Esperança”, ela pensou. Em cada noite de sono o significado de esperança passava por sua mente e fazia com que a jovem se imaginasse correndo por um corredor de vidro submerso cheio de portas. “Na esperança também há as ondas do esperar com fé que fluem em suas veias. A vida”, ela pensou. Há portas que poderão ser abertas, outras talvez nunca, mas ela sentiu que não precisava temê-las ou sentir culpa por não abrir todas elas.
E quando chegou a lua cheia, ela foi até o quintal e se deitou na espreguiçadeira. Levou uma das mãos na direção do céu estrelado, repetindo as ações de outros dias. Uniu as mãos e fechou os olhos até ouvir a música da qual sentiu falta nos últimos dias. Devagar ela se levantou e caminhou até a beira da piscina, ajoelhando-se de forma acolhedora e inclinando o corpo na direção da água. Daquele azul infinito saiu o tritão, tocando o rosto dela com as duas mãos, dizendo:
– Mesmo não me vendo, você acreditou em mim. Agora que sabe como realmente sou, não me abandone mais.
E o tritão tocou seus lábios nos dela para que a jovem pudesse acordar de um longo sono. Assim que abriu os olhos deitada na cama, voltou sua atenção para o pequeno calendário que tinha na mesa de cabeceira. Era o primeiro dia de lua crescente. Tudo, tudo havia sido um sonho.
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